Estava na estação Patriarca na zona leste sentado no banco a espera das 19:00 horas. O motivo da minha estadia nesse local não convém ser dito aqui.

Um metro de 6 vagões com sentido a Barra Funda para a minha frente. Nesse momento desce um garoto. Camiseta de time de futebol, chinelos verdes, mãos e cara pintada de prata. Levava consigo um bloco de papéis em sua não, do tamanho de cartas de baralho. Tinha um título nesse bloco e seguido de um texto em letras miúdas, tudo disposto em paisagem.

Inicialmente recolho meu celular com medo que ele aprontasse alguma comigo. Ele senta ao meu lado. Como todo o paulistano de classe média, automaticamente me surge a certeza que um pedido de esmola seria efetuado. Viro minha cara para fugir dessa situação.

Vale ressaltar que eram quatro bancos, eu estava no número 2 e o restante estava vazio. Ele fez questão de sentar no 3 e não no 4. Porque será que não manteve distância?

Estava curioso para saber o que estava escrito no papel. Acho que as olhadas laterais o motivou a falar.

– lá em Itaquera está chovendo – disse o menino.
– ‎Realmente, deve estar caindo um pé d’água.
– ‎Quê? – me olha com uma cara de dívida, como se não entendesse a expressão.
– Os trens estão molhados, então deve estar chovendo bastante para lá.
– ‎Como pode chover lá e não aqui?
– ‎Não sei – a primeiro momento quis me esquivar de uma longa explicação. No segundo, percebi que ele não tinha conhecimentos básicos sobre a chuva. Senti pena. Um trem chegou.
– ‎ Tchau – ele disse. Levantando e entrando no último vagão do trem.
– ‎Falou – respondi.

Depois disso ele viu que o último vagão tinha pouca gente e resolveu correr para o penúltimo antes das portas fecharam. Nesse tempo houve uma última troca de olhares.

Era fácil ele vir até mim e pedir dinheiro. Mas percebi que o que ele realmente queria era um pouco de sossego e alguém para conversar. Dinheiro, provavelmente ele irá conseguir com a comoção causada pela sua pouca idade. Mas será que conseguirá descobrir porque em alguns lugares chovem e em outros não?